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Diferente
do que muita gente imagina, Itaquera, situada no extremo Leste da cidade
de São Paulo, a 20 quilômetros do marco zero (Praça
da Sé), tem uma história muito bonita, repleta de lutas
sociais e de um bairrismo silencioso e romântico que por anos a
fio não atravessava os limites desse lugar, permanecendo apenas
no coração de seus moradores mais antigos. |
Já
foi, e isto é fato, uma grande, problemática e populosa
periferia metropolitana, rica em potencial de votos mas pobre demais para
sediar seu próprio desenvolvimento econômico e social. Embora
o retrato de Itaquera seja outro, hoje em dia, dificilmente o bairro deixará
de carregar tal rótulo, inclusive porque a grande mídia
costuma olhar para cá somente para focar os problemas e não
o progresso regional e o trabalho das pessoas que fazem daqui, um grande
lugar. Como a maioria dos municípios brasileiros, este bairro também teve sua origem indígena. A palavra Itaquera provém do guarani - linguagem utilizada pelos índios - e significa “Pedra Dura” (Ita-Aker). Foi oficialmente fundada no dia 6 de novembro de 1686 e, em 2008 completou 322 anos. Até um passado não muito remoto, o bairro era um imenso dormitório, uma vez que a maioria dos habitantes estudava, trabalhava e se divertia fora. |
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Nos registros históricos do bairro
há muitas questões a serem consideradas e avaliadas, muitas das
quais polêmicas até porque não há, em Itaquera, um
banco de dados mais completo e que possa servir de fonte de pesquisas. Com o
objetivo de levar informações precisas sobre a história
antiga e atual de Itaquera, a Empresa Jornalística Notícias de
Itaquera levantou e resgatou, ao longo de seus 30 anos de existência,
a história do desenvolvimento deste bairro, a qual está contida
em algumas edições do jornal, na revista “Retorno em Notícias”
e também num livro intitulado “Itaquera em Imagens”, lançado
em 2000. Trata-se de uma publicação inédita que valoriza
as imagens em cartões postais que destacam os principais pontos históricos,
comerciais, industriais, imobiliários e de lazer de Itaquera.
A primeira referência é de 1686 e foi dada pela Carta de Sesmaria.
Na época, os habitantes dessa região eram índios. Além
desse documento não há outros registros que comprovem a povoação
de Itaquera. Segundo alguns historiadores, um simples e precário rancho
denominado “Casa Pintada” foi efetivamente a primeira referência
sobre a povoação de Itaquera, já em 1820. Era um local
muito simples e precário, onde os viajantes paravam para se reabastecer.
Há quem acredite que o bairro tenha se desenvolvido a partir deste rancho,
entretanto, existem controvérsias. Primeiro porque a Casa Pintada ficava
à margem da antiga Estrada de Ferro Real que ligava São Paulo
a Mogi das Cruzes, na região de São Miguel Paulista, portanto
não pertencia à Itaquera. Segundo porque não há
dados ou registros que comprovem a existência de núcleos habitacionais
ao redor do rancho. Por isso, todas as referências sobre a povoação
de Itaquera são relacionadas à inauguração da estação
de trem nesse bairro, no dia 6 de novembro de 1875.
Mesmo assim, ainda pairam dúvidas: se existia necessidade de o trem parar
aqui era em função da demanda por esse transporte, conseqüentemente
o povoado há havia se constituído. Tanto é que a produção
agrícola do bairro era levada ao mercado central através do trem,
que circulava a vapor (a composição - uma Maria Fumaça
353, que era chamada de Velha Senhora). Em 1945, o professor Aroldo de Azevedo
pesquisou os aspectos geográficos e históricos da região
que fica entre a Penha (rio Aricanduva) e Poá (rio Guaió). Consta
que ele percorreu a área diversas vezes ouvindo os habitantes e registrando
episódios importantes, inclusive por meio de fotografias. Com base no
que colheu, ele escreveu uma tese que intitulou “Subúrbios Orientais
de São Paulo”, com a qual concorreu à cadeira de Geografia
do Brasil da então faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
Universidade de São Paulo (USP). Com esta tese, que inclui o primeiro
trabalho histórico de Itaquera cuja maior fonte de informação
foram os habitantes do bairro, Aroldo de Azevedo ganhou a cátedra e tornou-se
um autor reconhecido em todos o Brasil, por mais de 20 anos.
Em função desses hiatos na história do desenvolvimento
de Itaquera, a comunidade local optou por estabelecer a data de aniversário
em 6 de novembro, entretanto, a verdadeira idade do bairro é polêmica
e duvidosa. Há quem defenda que o local completará 323 anos de
existência, em novembro próximo, tendo por base a Carta de Sesmaria
elaborada em 1686. E também pessoas, como o advogado itaquerense falecido
em 1998, Tarcísio Augusto de Andrade, que festejaria 133 anos do bairro
referindo-se ao aniversário da inauguração da estação
de trem, em 1875. Assim como a maioria dos bairros e cidades, a real fundação
do bairro ainda é uma incógnita.
Até 1970, a principal economia local
era essencialmente agrícola (baseada no cultivo do pêssego). Com
a modernidade, o bairro que sempre possui excelente clima e espaço para
o desenvolvimento de São Paulo, passou a receber indústrias que
aproveitavam a mão-de-obra remanescente da migração para
o Leste. A infra-estrutura necessária a um lugar que cresceu completamente
sem planejamento tardou a chegar. Além do centro e de alguns bairros
cujos moradores têm melhor poder aquisitivo, o restante, a grande periferia
permanece amargando carências. Itaquera continua crescendo e, da mesma
maneira que milhares de brasileiros, os itaquerenses natos ou que adotaram o
bairro como pátria, crêem que dias melhores virão, gerando
qualidade de vida aos moradores e dotando Itaquera da infra-estrutura necessária
para que, enfim, possa sediar o desenvolvimento em todos os setores.
Ferrovia: certidão de nascimento
A estação ferroviária
foi, até 2004, o principal marco de desenvolvimento de Itaquera, pois
foi a partir de sua inauguração, em 1875, que o bairro passou
a crescer. Depois que a locomotiva 353, a famosa Maria Fumaça, circulou
por aqui intensificou-se o processo de migração. Comerciantes
de vários ramos abriram estabelecimentos facilitando a vida dos moradores.
Até então, os itaquerenses tinham que comprar no centro da cidade
ou fazer encomendas por meio de interlocutores comerciais. Esta é, sem
dúvida, uma parte da história que não pode ser esquecida
ou omitida.
A linha dividia o centro comercial, cortando Itaquera em dois extremos. À
direita ficavam os sítios Caaguassu e Caçapava (hoje o lado da
rua Gregório Ramalho) e à esquerda, ao lado das avenidas Pires
do Rio e Campanellas, situavam-se os sítios “Casa Pintada”
e “Rincão dos Taipas”. Além do trem que circulava
somente duas vezes ao dia, pelo bairro, de manhã e à tarde, Itaquera
não possuía nenhum outro meio de transporte, exceto as carroças.
Nos dias úteis da semana elas eram usadas para carregar material de trabalho.
Nos finais de semana, os moradores seguiam de carroça para divertirem-se
em festas na vizinhança, as fazendas próximas.
Era por meio da Maria Fumaça que os colonos levavam a produção
agrícola, principalmente o pêssego, para ser comercializada no
mercado central. Além disso, “tomar” o trem representava
um passeio para os moradores. Da locomotiva a vapor ao sistema de transporte
ferroviário atual, Itaquera evoluiu bastante, mas ainda assim os moradores
viajavam em composições inseguras e precárias, graças
ao vandalismo e ao descaso público. O mais recente incremento feito sobre
a ferrovia e o sistema de trens foi finalizado no ano 2000: a inauguração
do Expresso Leste, que vai de Guaianases à estação da Luz.
Integrado ao metrô, o sistema diminuiu o tempo de viagem, fechou algumas
estações, entre elas a de Itaquera, Artur Alvim e Cidade Patriarca.
Embora a ferrovia tenha exercido importante papel no progresso de Itaquera e
bairros próximos, a desativação dessas estações
coloca um ponto final na história, uma vez que o trecho, pelo qual circularam
desde a Maria Fumaça às composições de agora, foi
transformado na extensão da avenida Radial Leste, de Itaquera até
Guaianases.
Cada comunidade briga pela aplicação de projetos nesses locais
que são parte do patrimônio da região. Ativistas culturais
e principalmente a equipe do jornal Notícias de Itaquera defenderam,
até o último momento, a permanência do prédio da
estação para que fosse transformado num espaço cultural,
como um memorial do migrante, uma vez que grande parte de São Paulo é
habitada por migrantes, assim como a maioria da população de Itaquera.
Os imigrantes já têm um memorial situado entre as estações
Brás e Bresser do metrô. O Governo do Estado, por meio da Secretaria
da Cultura, recebeu o projeto do NI e acenou positivamente, mas antes que qualquer
iniciativa fosse tomada, a Prefeitura optou pela demolição da
estação, em junho de 2004, ano em que a então prefeita
Marta Suplicy tentava a reeleição e investiu em obras de maior
visibilidade aqui na Zona Leste. A estação foi sacrificada, assim
como a própria história do bairro. Absurdos de quem não
valoriza a cultura, a arte e a história.

Chega
a eletricidade
Eram 18 horas do dia 25 de agosto de 1951.
O Largo da Matriz, no centro do bairro, estava cheio pessoas que aguardavam
para assistir à grande epopéia da metade do século. Depois
de acionada a chave, tudo ficou mais claro e a comunidade fez uma grande festa
que certamente ainda está viva na memória dos mais antigos. Comemoraram
o desfecho de uma luta iniciada dez anos antes: a chegada da energia elétrica
ao bairro.
No dia 30 de outubro de 1941 um requerimento foi enviado ao ministro da Agricultura
solicitando a extensão da rede de distribuição de luz e
força para Itaquera. Quase um ano depois, em agosto de 42, o então
Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE) manifestou-se
contrário à medida, alegando que a instalação da
rede deveria ser por conta do requerente, o qual teria que comprar a energia
da concessionária (A publicação foi feita no Diário
Oficial da União de 5/8/42).
Em novembro do mesmo ano, novo pedido foi encaminhado ao órgão,
uma vez que o anterior havia sido interpretado de maneira errada, explicando
que não se tratava de benefício a particulares, mas sim um bem
público. Nesse ínterim, a Segunda Guerra Mundial acontecia e abalava
as estruturas do mundo. Mas, finalmente, dez anos depois a luz chegou e iluminou
Itaquera.
Nascem
mais do que morrem
O Cartório de Registro Civil e Tabelionato
de Itaquera foi implantado em 1921. Funcionou por muitos anos na rua Gregório
Ramalho, 82, quase em frente à então Administração
Regional, hoje Subprefeitura, no centro do bairro. Mas, com o objetivo de proporcionar
mais espaço e conforto aos usuários e funcionários, o mesmo
foi transferido para a rua Américo Salvador Novelli, 389, também
na parte central de Itaquera. Diariamente mais de 500 pessoas passam pelo estabelecimento
para efetuarem os mais diferentes serviços, como buscar informações,
testemunhas, registros de nascimento e óbitos, casamentos, enfim. Para
se ter uma idéia do movimento da unidade, são registradas mais
de 100 certidões de nascimento por dia, enquanto 500 óbitos são
lavrados ao mês. Portanto, nascem mais do que morrem em Itaquera.
Pedras
na Catedral
A estrutura geológica na área é
constituída por rochas antigas do tipo cristalino, com granitos da era
arqueozóica. Itaquera produzia uma das mais bonitas pedras que se pode
ver e que também servia de fonte de renda para muitos moradores. Algumas
das pedras retiradas da Pedreira de Itaquera estão cravadas nas paredes
e escadarias da belíssima Catedral da Sé no coração
da cidade, monumentos históricos de São Paulo e nas ruas do Brás,
por exemplo.

Terra do Pêssego
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A
Liberdade, no centro da cidade, é onde está concentrada
a maior colônia japonesa do mundo. Mas, além desse lugar
tradicional, os orientais estão distribuídos por todo o
Estado e Itaquera também tornou-se a “casa-sede” dos
imigrantes japoneses que, em 1925 chegaram nestas terras para trabalhar
e tentar um lugar ao sol. Assim formou-se por aqui um grande bairro -
constituído por chácaras - que até hoje é
chamado de Colônia Japonesa. Há até um passado não
muito distante, a agricultura era a principal atividade naquela região.
Os moradores cultivavam especialmente ameixa e pêssego, fruta que tornou
Itaquera conhecida e que até hoje referencia o bairro em seu principal
corredor viário, a Jacu-Pêssego. |
Aliás,
pêssego também seria o nome da estação de metrô
que teve sua denominação alterada para Dom Bosco. Embora as novas gerações não mantenham mais acesa a mesma chama de tradições culturais e folclóricas do grupo, os japoneses continuam participando ativamente da vida de Itaquera, de outras maneiras, em diferentes atividades. Os mais velhos ainda são unidos e tentam fazer com que tudo o que aprenderam no Japão não morra. Assim, realizam em Itaquera três eventos que caracterizam união e a tradição de seu povo: a Festa da Cerejeira em Flor, que acontece anualmente no Parque do Carmo, a gincana poliesportiva Undokai e o Bazar Beneficente da Kodomo-No-Sono, que abriga menores portadores de deficiência mental, sediada na Colônia. Embora as novas gerações não mantenham mais acesa a mesma chama de tradições culturais e folclóricas do grupo, os japoneses continuam participando ativamente da vida de Itaquera, de outras maneiras, em diferentes atividades. Os mais velhos ainda são unidos e tentam fazer com que tudo o que aprenderam no Japão não morra. Assim, realizam em Itaquera três eventos que caracterizam união e a tradição de seu povo: a Festa da Cerejeira em Flor, que acontece anualmente no Parque do Carmo, a gincana poliesportiva Undokai e o Bazar Beneficente da Kodomo-No-Sono, que abriga menores portadores de deficiência mental, sediada na Colônia. Nestes três eventos, as pessoas podem saborear bebidas e pratos típicos do Japão, adquirir objetos decorativos preparados pelas japonesas, brincar, assistir a danças folclóricas e rituais, e conhecer um pouco mais da cultura nipônica. Só para se ter uma idéia, 22 entidades filiadas à Associação das Cerejeiras do Parque do Carmo participam da Festa da Cerejeira - flor que simboliza o Japão e que desabrocha no inverno, deixando um colorido harmonioso e realmente admirável no local. |
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Japoneses
e suas raizes
No início da década de 20, os proprietários de uma fazenda
em Itaquera, convencidos de que os japoneses seriam capazes de produzir frutas
e verduras na periferia de São Paulo, decidiram criar a Colônia
Nipônica de Itaquera. Em 1925, nessas terras cobertas de capim barba-de-bode,
instalaram-se as primeiras 32 famílias de japoneses. Os anos de adaptação
foram os mais difíceis. A fertilidade da terra era apenas razoável.
Muitos desistiram e partiram para terras mais férteis, ou retornaram
pra o Japão. Mas os que aqui ficaram transformaram a Colônia de
Itaquera na próspera Terra do Pêssego.
DATAS IMPORTANTES
DA COLÔNIA
* 10 de julho de 1925 - fundação da Colônia Japonesa
* Julho de 1927 - fundação da Associação de Moços
da Colônia de Itaquera (em 1963 a entidade passou a fazer parte da Aceci)
* 10 de junho de 1936 - nasce a Associação dos Japoneses da Colônia
de Itaquera
* 25 de janeiro de 1947 - abertura do Clube dos Estudantes de Itaquera (CEI).
Passou a pertencer à Aceci em 63.
* 26 de outubro de 1957; fundação da Associação
das Senhoras da Colônia de Itaquera. Em 1981 a entidade integrou-se ao
INC.
* 1958 - A Associação dos Japoneses passou a denominar-se Sociedade
Civil União Itaquerense (SCUI)
* Outubro de 1963 - Formada a Associação Cultural e Esportiva
da Colônia de Itaquera (Aceci) para coordenar as atividades dos jovens.
No final da década de 60, a Aceci se desfez e seus departamentos passaram
a integrar a SCUI.
* 8 de agosto de 1973 - Fundação da Associação da
3ª Idade (kotobukikai). Em 1981 a Associação passou a fazer
parte do INC.
* 26 de fevereiro de 1981 - A SCUI mudou a denominação para Itaquera
Nikkei Clube (INC).
* Atualmente o Itaquera Nikkei Club tem cerca de 300 famílias associadas
entre moradores da Colônia de Itaquera, ex-moradores e outros.