
Único
bairro da Zona Leste visitado por três
presidentes da República desconhece fatos de sua própria história
Poucos bairros e cidades
brasileiras tiveram o privilégio de, em algum dia, receber a visita de
um presidente da República. Mais raro ainda são as localidades
que foram visitadas por três autoridades máximas do País.
Itaquera é excessão à esta constatação. Entre
1979 e 2004, o bairro recepcionou três chefes da nação durante
o período de governo (o militar João Batista Figueiredo e os civis
Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva). Além deles,
dois polêmicos ex-presidentes do Brasil também vieram para cá:
o matogrossense de Campo Grande, Jânio da Silva Quadros, que renunciou
ao cargo no dia 25 de agosto de 1961, após sete meses de mandato; e o
carioca Fernando Affonso Collor de Mello, afastado do cargo após dois
anos e seis meses.
Jânio veio a Itaquera no efervescente ano de 1.985, quando estava em campanha
para a Prefeitura de São Paulo, tempo que o Brasil dava os primeiros
passos para a abertura democrática com as eleições diretas.
Chegou ao bairro a convite do líder maçônico José
Carlos Gutierrez, sendo recepcionado pelos empresários filiados à
Associação das Indústrias da Região de Itaquera
(AIRI), em evento realizado no salão social da Associação
Cristã de Moços (ACM) do bairro. Naquele ano, Jânio venceu
a eleição, assumindo o cargo em janeiro de 86 em substituição
ao saudoso prefeito santista Mário Covas Júnior.
Primeiro presidente civil eleito pelo voto direto desde 1960, Collor de Mello
foi alçado à Presidência pela vontade da maioria esmagadora
dos brasileiros. Assumiu num 15 de março de 1990, mas graças à
corrupção deslavada no Poder, permaneceu no governo até
o dia 2 de outubro de 1992, quando foi afastado do cargo por impeachment, sendo
substituído pelo vice, Itamar Franco. Embora quase ninguém saiba,
quando candidato, em plena disputa pela Presidência, Fernando Collor visitou
a Casa de Saúde Santa Marcelina, aqui em Itaquera, onde ajoelhou-se e
rezou com as madres que dirigem a entidade, a exemplo do que praticamente todos
os políticos fazem quando percorrem a Zona Leste.
Collor conheceu o ambulatório do hospital, o pronto-socorro e a ortopedia.
Esteve por lá a convite do médico (recentemente falecido) Ricardo
Veronezi, que trabalhava na divulgação da campanha “S.O.S.
Santa Marcelina”, objetivando a arrecadação de dinheiro
para a conclusão das obras de um novo prédio da unidade de saúde.
Antes do “pit stop” no hospital, Fernando Collor visitou os conjuntos
habitacionais José de Anchieta, José Bonifácio e Cidade
Tiradentes.
Quanto às visitas dos presidentes durante o exercício do mandato,
caíram no esquecimento coletivo porque não foram colocadas placas
nas respectivas inaugurações de que participaram, ou feito qualquer
outro tipo de registro, exceto as reportagens do Notícias de Itaquera.
Mas vale refrescar a memória de alguns moradores e informar os outros
novos que por aqui chegaram, afinal, mais uma vez estamos em ano eleitoral com
disputa pela sucessão presidencial.
De acordo com a história, o primeiro chefe maior da nação
que veio “dar expediente” por aqui foi o general carioca João
Batista de Oliveira Figueiredo (15/03/79 a 15/03/85). A falta de registros impressos
impossibilitou informar a data correta em que ele desembarcou no conjunto habitacional
José Bonifácio - Cohab II - durante o governo. Quem lembra fragmentos
deste dia é o metalúrgico aposentado José Arcanjo de Araújo,
62 anos, que se mudou para o núcleo habitacional em 15 de setembro de
1980. Militante petista e amigo pessoal do sindicalista Luiz Inácio Lula
da Silva, “Zé Preto” como ficou conhecido em Itaquera, comenta
que foi um dia especial para a Zona Leste. No começo da década
de 80, Itaquera era considerada uma região no “fundão”
de São Paulo, cercada de violência, com falta de saneamento básico,
meios precários de transporte público, porém, bem menos
populosa que hoje. Para chegar à Praça Brasil e dar como inaugurado
oficialmente o conjunto habitacional José Bonifácio, a comitiva
de Figueiredo passou pela avenida Líder (Cidade Líder), trafegou
pelas ruas centrais de Itaquera até entrar no perímetro da Cohab.
Paulo Vasco, 60 anos, vendedor de jornais, doces e lanches em frente à
praça da extinta estação ferroviária, recorda-se
que as ruas do Centro de Itaquera foram lavadas, pintadas e a população
ficou nas calçadas saudando o ditador que passava em seu espaçoso
Landau. Carioca, o general João Batista Figueiredo sucedeu o general
Ernesto Geisel, eleito pelo colégio eleitoral com 355 votos. Foi o último
chefe do regime militar. Batista foi eleito com a finalidade de completar o
projeto da abertura democrática. Teve o mais longo mandato atribuído
a um presidente brasileiro. Foi um governo com reflexos diretos na crise econômica
de 1981 a 1984, nas brigas internas dos integrantes do governo e na falta de
habilidade política de um presidente, conforme arquivos de então.
A inauguração do conjunto habitacional José Bonifácio,
feita pelo presidente, fez parte de grande programa de habitação
popular criado pelos militares e que incentivava a população de
baixa renda a ter um teto para morar. Itaquera foi escolhida para a construção
dos primeiros núcleos populares de habitação. O conjunto
José Anchieta (Cohab I) veio primeiro que José Bonifácio.
Segundo Zé Preto, logo depois da visita do militar houveram manifestações
de um grupo de mutuários que não concordava com as prestações
“salgadas” do BNH. João Batista Figueiredo veio a Itaquera
acompanhado por utros militares e pelo direitista governador do Estado de São
Paulo, na época, Paulo Salim Maluf.
FHC ESTEVE EM ITAQUERA DUAS VEZES, NO MESMO ANO
Também natural da
cidade do Rio de Janeiro, o tucano Fernando Henrique Cardoso (o que mais tempo
permaneceu na Presidência, sendo eleito em 1994 e reeleito em 98, governando
até 31/12/2002) esteve em solo itaquerense por duas vezes, em 1996. Na
manhã do sábado, 31 de agosto daquele ano, ele visitou as instalações
do Hospital Santa Marcelina, junto com seu ministro da Saúde de então,
o médico Adib Jatene. Como sempre acontece, as religiosas que dirigem
a entidade aproveitaram a ilustre presença do presidente para reivindicar
mais verba e mostrar toda a complexidade da casa de saúde. Elas esperavam
apenas Jatene, e disseram terem ficado surpresas com a chegada de FHC.
Dias depois ele voltou ao bairro, desta vez na estação Corinthians-Itaquera,
onde anunciou a retomada das obras da extensão Leste do metrô,
de Itaquera até Guaianases, as quais estavam paralisadas desde 1992.
Na realidade, o presidente estava anunciando a integração do trem
expresso ao sistema ferroviário, e não o metrô. Morador
em São Paulo, Fernando Henrique esteve acompanhado pelo então
governador Mário Covas, quatro ministros, senadores, deputados e afins.
“HOMEM DO POVO”
O terceiro presidente do
Brasil que veio a Itaquera, em pleno governo e a trabalho, foi o ex-metalúrgico
Luis Inácio Lula da Silva. Primeiro governante de esquerda, civil e sem
formação universitária, ele foi o 19º eleito pelo
voto direto entre as 27 eleições já realizadas desde 1981.
Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns (PE), Lula militou no sindicalismo
no ABC Paulista até alcançar o posto de chefe da nação.
Desgastado junto ao povo que o elegeu, o governo Lula vem enfrentando a maior
crise política da história recente do Brasil. Sua visita a Itaquera
ocorreu em setembro de 2004, ocasião em que inaugurou o inacabado prolongamento
da Radial Leste, daqui até Guaianases, a convite da prefeita Marta Suplicy,
então candidata à reeleição.
O palanque foi montado no meio da avenida, e ao lado da histórica Praça
da Estação Ferroviária, demolida em junho daquele ano.
Foi um sábado de festa, agitação política, calor
e chuva forte. A imprensa de todo País mandou seus correspondentes com
câmeras, microfones e sinais super poderosos. Muito diferente de quando
o militar João Batista Figueiredo passou pelo bairro, é claro.
Há 26 anos, a comunicação brasileira dispunha de telex,
telefone, fotografia manual, sinais de TV que não cobriam todo território,
jornais impressos e emissoras de rádios. A cobertura feita para a visita
do presidente operário foi acompanhada em tempo real pela revolucionária
Internet, entre outros veículos.
Como estava em ano de campanha, Lula da Silva foi multado pelo Tribunal Eleitoral,
pela atitude de subir no palanque para inaugurar a obra da colega Marta. O ato
foi interpretado pela Justiça como uma estratégia eleitoral para
alavancar a imagem da colega candidata. Paulo Vasco acha que, independentemente
dos interesses partidários, essas visitas mereciam placas comemorativas,
afinal somos o único bairro da Zona Leste a registrar a presença
de efetivos chefes da nação.

Casarões do Parque do Carmo remetem à herança colonial
Quando o assunto é Parque
do Carmo logo nos vem à memória quiosques, play-grounds, lagos
e áreas verdes. O cenário também é propício
ao lazer, ao descanso e ao namoro. Portanto, é natural que passe batido
da retina dos visitantes os belos casarões em estilo colonial que já
acomodaram os ricassos Bento Pires (primeiro dono), Oscar Americano (segundo
dono), e os empregados e babás da fazenda. Torna-se mais natural ainda,
se notarmos, que a presença do casarão não é divulgada
aos visitantes. O conjunto é um dos poucos exemplares concretos dos tempos
que o Parque do Carmo era uma fazenda produtora de café, criadora de
gado de leite e que servia de veraneio aos proprietários, nos séculos
19 e início do 20.
As três casas são ótimas opções para análises
de arquitetos, estudantes e apreciadores da arte do Brasil-Colônia. Os
três casarões têm amplos cômodos e agradáveis
alpendres. As janelas são voltadas para o nascer do Sol, para preservar
a saúde das crianças, segundo explica um estudo do CEA - Centro
de Educação Ambiental. Aliás é na casa que abriga
o CEA que está a última herança da fertilidade financeira
de Oscar Americano, como acreditam os técnicos da Secretaria Municipal
do Verde e Meio Ambiente. Trata-se de um luxuoso e espaçoso banheiro
de mármore escuro, com finos sanitários decorados com ramalhetes
de flores e torneiras de bronze. Segundo um atinquário consultado pela
reportagem, ambos são itens raros de se encontrar na cidade.
O banheiro significa uma vitória para os que defendem a preservação
da história de Itaquera. Ao longo de mais de 20 anos, o Parque do Carmo
nunca foi observado pela Prefeitura como local de importância histórica
e cultural para o bairro. Esse fato resultou no desaparecimento de muitas peças
que sobraram dos três casarões quando a área foi vendida
pela família de Oscar à Prefeitura. A SVMA preocupou-se, até
hoje, com o levantamento do ecossistema local. Mesmo assim, há pouca
divulgação sobre o que nasce e morre na fauna e flora do Parque
do Carmo.

Itaquera tem seu
Santuário
Quando alguém ler a história
religiosa dos 450 anos de São Paulo, a página de Itaquera terá
que ser pronunciada em voz alta. É que em janeiro de 2005, a Igreja de
Nossa Senhora da Paz, situada na avenida Maria Luiza Americano, no Jardim Nossa
Senhora do Carmo, foi elevada à categoria de “santuário”
pelo bispo Dom Fernando Legal. Com esse título, o templo passa a ser
o segundo Santuário de Devoção Mariana da Zona Leste. O
primeiro é o de Nossa Senhora da Penha, decretado há cerca 200
anos.
Entre outras particularidades, Dom Fernando Legal, bispo da Diocese de São
Miguel Paulista, alegou que foram três as datas marianas comemoradas este
ano para criar o decreto. São elas os 146 anos da aparição
de Nossa Senhora de Lourdes; os 150 anos da proclamação do dogma
da Imaculada Conceição; e o centenário da coroação
de Nossa Senhora Aparecida. Legal destaca ainda como elementos motivadores para
a decisão, o grande afluxo de fiéis, o espaço geográfico,
a singular dedicação do padre Dimas Martins Carvalho, pároco,
e a notada devoção à Nossa Senhora da Paz, guardiã
do principal anseio dos povos do mundo hoje.
No campo político, esta foi a ação mais visível
do bispo Fernando Legal à frente da Diocese de São Miguel Paulista,
que está debutando, completando 15 anos de vida. O religioso rebate e
lembra que a construção de um seminário no bairro de São
Miguel Paulista, e a ordenação de 56 padres desde sua chegada,
são ações igualmente bastante representivas. Dom Fernando
Legal está com 73 anos de idade, e a dois da aposentadoria. A Diocese
de São Miguel Paulista, com 84 paróquias, é a segunda maior
da cidade. A primeira é a Arquidiocese de São Paulo.
Boa nova - Às vésperas da chegada do Natal, a notícia da
transformação da paróquia em santuário encheu de
orgulho os fiéis e as lideranças comunitárias do Jardim
Nossa Senhora do Carmo. Os paroquianos traduzem este decreto canônico
como um presente para o padre Dimas, que dedica os 365 dias do ano, à
construção “material e imaterial” da igreja de Nossa
Senhora da Paz. Enquanto paróquia, a instituição mantém
quatro comunidades (igrejas), núcleos pastorais, grupos de orações,
edita uma revista mensal, dispõe de um jardim formado a partir de plantas
citadas na Bíblia (incenso, mirra, etc); possui uma capela de inspiração
africana, preserva um acervo de imagens sacras barrocas, e apóia espiritualmente
o trabalho de uma irmandade de negros, nascida pela veia pastoral.
Passam pelo templo algo em torno de 5 mil fiéis nos finais de semana,
para acompanhar as missas. Nos planos da diocese ainda está a construção
de um museu de imagens de Maria cujo local já está reservado.
Nascido e criado em Borborema, interior de São Paulo, Dimas Martins Carvalho
ordenou-se padre em 1984. Assumiu a Igreja Nossa Senhora da Paz como pároco,
em 1986, em substituição ao padre Nildo Amaral Junior, morto num
acidente automobilístico. À categoria de paróquia, ela
foi elevada em 9 de julho de 1986, pelo bispo Dom Angélico Sândalo
Bernardino (atualmente bispo em Blumenau/ SC). Na opinião do padre Wilson
de Oliveira Salles, o Sabé, chanceller da Diocese de São Miguel
Paulista, a iniciativa do bispo em tornar a Igreja da Paz um santuário
é justa por haver algo de diferente na fé e no carisma dos seus
fiéis. “Como aquela igreja nasceu tão grande na fé?”,
pergunta Sabé.
Lugar Sagrado
De acordo com Dom Daniel Tomasella, bispo emérito da diocese de Marília,
a palavra santuário significa etimologicamente “lugar sagrado”.
No Código de Direito Canônico a palavra “santuário”
designa uma igreja para qual afluem os fiéis em grande número,
por algum motivo especial: veneração de uma relíquia ou
imagem, uma aparição sobrenatural (Cânon 1230). Paralelo
aos acontecimentos, o Santuário de Nossa Senhora da Paz deverá
passar por algumas adaptações para atender às determinações
do Código de Direito Canônico. A sala de ex-votos é uma
delas.
Pelo Código Canônico, Fernando Legal deverá criar ainda
um estatuto determinando as regras do santuário, como por exemplo, com
quem ficará o acervo de peças sacras (diocese ou igreja), e ainda
nomear um reitor. Padre Dimas agora prepara um dossiê com cerca de 100
páginas onde estará contida as histórias do bairro e da
Igreja para entregar ao bispo, que dará conhecimento ao Vaticano. Neste
volume estarão diversas reportagens do jornal Notícias de Itaquera,
que ao longo de 25 anos acompanhou os passos de Dimas e seu fiéis no
bairro, assim como a trajetória milagrosa da Igreja de Nossa Senhora
da Paz.
“Perdemos um patrimônio importante da história de Itaquera,
este ano, mas ganhamos outro tão importante quanto”, comemora Dimas.
O patrimônio perdido a que o religioso refere-se é a antiga estação
ferroviária do bairro, demolida em junho último pela administração
de Marta Suplicy em virtude das obras de prolongamento da avenida Radial Leste,
de Itaquera até Guaianases.